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NOS(OTRAS)

O PROJETO


“Por tê-las visto levar uma existência destinada ao crime, abomino e fujo desse sexo inclinado por sua natureza ao vício. Eu rejeito as leis do casamento e há muito tempo não tenho nenhuma companheira compartilhando minha cama.”


São as primeiras linhas da fábula de Pigmalião e sua estátua, escrita pelo poeta latino Ovídio (século I dC) no Livro X das Metamorfoses. Além da tradução, um detalhe as separa do texto original: coloquei-as na primeira pessoa do singular. Ao lê-las em voz alta, essa sutil operação trouxe à tona entre meus lábios toda a violência misógina dessa antiga fábula tantas vezes revisitada pelo mundo das artes. Era setembro de 2018, eu preparava então uma leitura performática dessa história para o programa (Re)leituras da Péniche Pop (Paris). No Brasil, de onde venho, a campanha presidencial estava a todo vapor, Lula ainda preso, Jair Bolsonaro subindo nas pesquisas a cada dia. O texto de Ovídio literalmente caiu sobre mim e quase me esmagou. Atravessado pelo contexto político no Brasil e pelo discurso de ódio de Bolsonaro a todos os corpos que não os que se parecem com ele (homem branco cisgênero heterossexual e economicamente privilegiado), a criação da performance Me too, Galatéia foi uma luta diária contra essa fábula que me marcou não enquanto mito do amor do artista por sua obra, mas como mito fundador da cultura do estupro e da dominação patriarcal sobre os corpos ditos femininos.


Menciono aqui esta história porque NOS(OTRAS) nasce da vontade de ver esta performance Me too, Galatéia - criada poucas horas antes da eleição de Bolsonaro ao poder (28 de outubro de 2018), - encarnada, apropriada, questionada, devorada por outros corpos gênero-dissidentes. Existências a respeito das quais os Pigmaliões contemporâneos poderiam dizer que "eles abominam e fogem posto que gêneros inclinados por sua natureza ao vício". Esta performance encontrou muitas ressonâncias desde a sua estreia, razão pela qual decidi continuar a compartilhá-la fora do contexto de sua criação na Péniche Pop. Sigo impressionado pelos feedbacks poderosos e emocionantes que chegam até mim após cada apresentação, testemunhos sobre o que pode um corpo em estado de representação, sobre como múltiplas alteridades podem emergir de um mesmo corpo, sobre como fragilidade e força podem coexistir sem contradição. Se na história de Pigmalião estamos frente a questões explícitas de misoginia, as discriminações sofridas pelas pessoas gênero-dissidentes, especialmente as pessoas trans, são resultado dessa mesma violência patriarcal. Pareceu-me relevante ampliar minha própria leitura desse mito pelos pontos de vista e experiências de outras pessoas consideradas como “os outros” pela sociedade.


NOS(OTRAS) não é a vontade de reproduzir Me Too, Galatéia com seis corpos diferentes, como vimos em projetos de multiplicação de um solo como Good Boy / Mauvais Genre, de Alain Buffard. O meu desejo é oferecer este trabalho para ser devorado por seis performers, numa abordagem antropofágica à imagem da própria performance, na qual visto-me com um cesto de frutas e legumes como oferecendo meu corpo a ser devorado pelos espectadores.

O que quero dizer por ato antropofágico é que NOS(OTRAS) terá um processo de criação próprio e singular. Partiremos dos materiais performativos que constituem Me Too, Galatéia rumo a um destino aberto e desconhecido. Estes materiais incluem, por exemplo, as representações pictóricas na história da arte do mito de Pigmalião; o desafio de fazer fabricar um corpo para si a partir de próteses e acessórios comestíveis; a busca por uma escrita coreográfica que coloque em cena um corpo plástico e metamórfico oscilando entre posturas de Galatéia (vindas das pinturas analisadas) e posturas de corpos em luta/em manifestação (a partir de imagens a serem recolhidas por todes); bem como, obviamente, o texto original de Ovídio. NOS(OTRAS)) será uma performance duracional interpretada por seis pessoas gênero-dissidentes. Duracional porque quero criar com estes seis intérpretes solos que possam ser articulados entre si, de forma a ocupar um dia inteiro num museu ou espaço alternativo. A estrutura dramatúrgica de solos sucessivos não exclui, no entanto, a possibilidade de momentos coletivos entre os momentos focalizados em cada ume.

O processo criativo será acompanhado pela transmissão de ferramentas de trabalho em torno do corpo em metamorfose sobre o qual trabalho há vários anos, bem como por provocações e reflexões da filósofa transfeminista e trabalhadora do texto Emma Bigé. O projeto também inclui o acompanhamento de uma pessoa em cenografia e figurinos, que será responsável por imaginar princípios comuns para a confecção desses corpos protéticos comestíveis, bem como um contexto cenográfico que possa acolher a multiplicidade dos seis solos.



Direção artística: Pol Pi

Provocações: Emma Bigé

Cenografia e elementos plásticos: a definir

Criação e atuação: os seis intérpretes serão escolhidos por meio de audição

Produção: NO DRAMA

Produção executiva: Latitudes Prod. – Lille / Louis Eonnet

Administração: Adèle Devos

Communicação: Louise Marion – Astrid Herbron



©Marc Domage



REFLEXÕES DE EMMA BIGÉ


NOS(OTRAS) é uma proposta de aliança transfeminista: uma oportunidade de reunir, em torno da dissidência de gênero, a recusa de uma organização binária do mundo e da imaginação. Em vez disso, NOS(OTRAS) (nós=outres, nós que somos outres umes para es outres) vai em busca de multiplicidades, dos monstros, dos inclassificáveis, atravessados, de todes aqueles que excedem as categorias do humanismo moderno/colonial, na trilha dos futuros e imaginários que essas multiplicidades prometem.


Se a perspectiva política de fundo de NOS(OTRAS) é a da luta contra o capitalismo racial/patriarcal, a questão é indissociável: como contribuir para abolir sua estética? Ou seja, como acabar com as imagens do belo, do verdadeiro, do justo, da sensibilidade, das obras de arte e dos artistas que ele veicula? Paul B. Preciado comenta em Dysphoria Mundi que, do ponto de vista da estética petro-sexo-colonial, um posto de gasolina abandonado sempre parecerá mais bonito que o Taj Mahal: o fascínio pelo gasto de energia fóssil, a melancolia pelo tempo das grandes "conquistas" do Oeste, fascinam e excitam os sentidos. As ficções que viralizam nos cinemas e computadores de todo o mundo contam histórias de poderosos heróis petromachos que erradicam seus inimigos, celebrando um tecnopatriarcado cada vez mais musculoso, mesmo diante de sua derrocada. Poderíamos desaprender essa estética? Aprender a dizer outra coisa no lugar dela?


Felizmente, ao longo da história da modernidade/colonialidade, há uma série de tentativas de desenvolver gestos, percepções, léxicos, saberes-sentires que se situam fora desta estética da predação capitalista. A proposta? Tomar o tempo para lê-las. Tomar o tempo para limparmos olhos e ouvidos e nos tornarmos atentas ao que excede aquilo que o patriarkkkapitalismo sabe dizer sobre nós.


Um local de estudo em particular nos será dado pelas Metamorfoses de Ovídio. O livro de Ovídio fala de mudanças, mutações, movimentos aberrantes e monstruosos, que passam de um gênero ou de uma espécie para outra. Frequentemente, Ovídio toma as metamorfoses ali presentes como testemunhas do fato de que a mudança, o movimento, a mutação, deveriam justamente serem evitadas ou, em todo caso, refreadas. O que acontece quando você abraça a mutação, em vez de tentar contê-la? Iremos em busca de antídotos para a visão limitada que Ovídio oferece das metamorfoses, em busca de poderosas figuras de transição.






©Maria Máximo






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